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A matemática por trás da amortização de empréstimos (com exemplo resolvido)

Rodrigo Krohling
·8 min de leitura

Uma tabela de empréstimo tem uma propriedade que surpreende quase todo mundo na primeira vez: todas as parcelas são idênticas, mas o que cada parcela faz muda completamente do primeiro mês para o último. Entender o porquê leva uns dez minutos de aritmética, e muda como você lê toda oferta de crédito depois disso.

O problema que a fórmula resolve

Você toma emprestado um valor P a uma taxa periódica i e quer devolver em n parcelas iguais. Quanto deve ser cada parcela?

Pequena demais e a dívida nunca fecha — o juro de cada período supera o que você paga. Grande demais e você paga a mais. Existe exatamente um valor que zera o saldo na parcela n.

Derivando

Pense em cada parcela como uma quantia entregue num ponto diferente do futuro. Uma parcela PMT paga daqui a k períodos vale PMT / (1 + i)^k hoje, porque essa quantia menor, deixada rendendo i por k períodos, cresceria até PMT.

O empréstimo se equilibra quando o valor presente das n parcelas iguala o valor emprestado:

P = PMT/(1+i)^1 + PMT/(1+i)^2 + ... + PMT/(1+i)^n

Coloque PMT em evidência e você tem uma progressão geométrica de razão 1/(1+i). A soma dela colapsa numa forma fechada:

P = PMT * (1 - (1+i)^-n) / i

Rearranjando para a parcela:

PMT = P * i / (1 - (1+i)^-n)

É isso. Toda tabela de amortização do mundo é essa linha mais escrituração.

Um exemplo resolvido

Empreste 10.000 a 1% ao mês por 12 meses.

PMT = 10000 * 0,01 / (1 - 1,01^-12)
    = 100 / (1 - 0,887449)
    = 100 / 0,112551
    = 888,49

Doze parcelas de 888,49 somam 10.661,85, então o empréstimo custa 661,85 de juros.

Agora veja o que cada parcela faz. O juro é sempre cobrado sobre o saldo devedor atual, então é recalculado todo mês:

mês   parcela   juros  principal    saldo
  1    888,49  100,00     788,49  9.211,51
  2    888,49   92,12     796,37  8.415,14
  3    888,49   84,15     804,34  7.610,80
  ...
 11    888,49   17,51     870,98    879,69
 12    888,49    8,80     879,69      0,00

A parcela nunca muda. A composição muda, continuamente: o juro cai porque o saldo cai, e a fatia de principal absorve exatamente o que o juro larga. Esse é o mecanismo por trás de toda a tabela.

Por que prazo longo dá sensação de pagar por nada

No exemplo de doze meses acima, o juro é 11,3% da primeira parcela. Em prazo curto e taxa moderada, a divisão nunca é dramática.

Estique o prazo e ela fica dramática. Num financiamento de 30 anos a 9% ao ano, a primeira parcela é esmagadoramente juro, e o cruzamento — o mês em que a fatia de principal finalmente supera a de juros — chega depois da metade do contrato. Saia no ano três e você pagou muito dinheiro e reduziu muito pouco a dívida. Nada de impróprio aconteceu; é aritmética. Juro incide sobre o que você ainda deve, e no ano três você ainda deve quase tudo.

É também por isso que o custo total sobe tão rápido com o prazo. Mesmos 200.000 a 9% ao ano:

  • 10 anos — 2.534 por mês, 104.022 de juros
  • 20 anos — 1.799 por mês, 231.868 de juros
  • 30 anos — 1.609 por mês, 379.328 de juros

Ir de vinte para trinta anos economiza cerca de 190 por mês e custa cerca de 147.000. Isso ainda pode ser a decisão certa para o fluxo de caixa de uma família. Só precisa ser uma decisão, não um padrão escolhido porque a parcela coube no orçamento. Rodar as duas lado a lado leva segundos e a diferença raramente é a que as pessoas esperam.

O que amortizar realmente faz

Um pagamento extra pode ser aplicado de duas formas, e elas não são equivalentes:

  • Abatendo o principal. O saldo cai imediatamente. Todo juro seguinte é calculado sobre um número menor, então a economia se compõe pelo resto do prazo.
  • Quitando parcelas futuras. Você pagou a conta do mês que vem adiantado. O saldo segue o cronograma original e você economiza quase nada.

Os bancos nem sempre assumem a primeira opção. Sempre que amortizar, declare explicitamente que é para abater o principal, e confirme depois que o prazo foi encurtado ou a parcela recalculada. A diferença ao longo de um contrato longo chega à casa das dezenas de milhares.

Nominal contra efetiva

Mais uma armadilha, porque ela decide qual oferta é de fato mais barata.

Uma taxa anunciada como 12% ao ano, com capitalização mensal, não é 12% ao ano. Cada mês cobra 1%, e doze meses disso compõem em:

(1 + 0,01)^12 - 1 = 0,1268 = 12,68%

Esses 12,68% são a taxa efetiva anual. Quanto mais vezes o juro é capitalizado, mais a taxa efetiva se afasta da nominal do cartaz. Ao comparar ofertas, compare a mesma coisa — ou ambas efetivas, ou ambas nominais com a mesma frequência de capitalização. A mesma aritmética joga a seu favor quando você está poupando em vez de tomando emprestado, que é todo o ponto de uma projeção de juros compostos.

Lendo uma tabela com olhar crítico

Três perguntas que valem para qualquer tabela de amortização:

  1. Qual é o total pago? Não a parcela. A soma.
  2. O que há na parcela além de principal e juros? Tarifa de abertura e seguros obrigatórios são comumente financiados junto ao saldo, o que significa que você paga juro sobre eles também. Um empréstimo com taxa menor e tarifas maiores pode custar mais.
  3. Quando acontece o cruzamento? Se a fatia de principal só supera a de juros no ano 17 de um contrato de 30, agora você sabe o que sair antes custa.

Nada disso exige formação em finanças. Exige uma fórmula e a disposição de olhar o total em vez da prestação.